Editorial
Ao procurarmos exposições da prática enquanto pesquisa, temos mirado apresentações que enquadram epistemologicamente a prática artística de maneira a emergir novos conhecimentos que possam ser compartilhados. Entretanto, como temos descoberto, há muitas maneiras e modos de enquadramento, seja a partir de uma perspectiva pessoal, histórica, sistemática, ou metodológica, apenas para nomear algumas dessas. Isso sugere que a exposicionalidade é mais uma característica distribuída entre os elementos de uma submissão e menos uma definição de um único enquadramento epistêmico. Então, o que se considera enquanto pesquisa em quaisquer um desses elementos, não pode ser separado dos atos específicos de enquadramento que se articulam na exposicionalidade global de uma proposta.
Com este editorial, gostaria que vocês ao invés de rebaixarem suas exigências quanto ao enquadramento epistêmico, dirigissem sua atenção para as reconfigurações do conhecimento que acontecem através dos enquadramentos sem uma epistemologia explícita que as sustentem. A partir desse posicionamento quanto a exposicionalidade, podemos perseguir um novo projeto epistêmico, ainda que mais importante, talvez, seja reconhecer que a pesquisa possa ter lugar sem saber precisamente como a diferença epistêmica se traduz em conhecimento. A criação de exposições, sem dúvida alguma, não é a instância única de enquadramento. De fato, a exposicionalidade é mais facilmente abordada, uma vez que seja entendida como parte de uma prática muito mais ampla de enquadramento, onde a prática da arte é, ela própria, entendida como tal prática. Por exemplo, podemos ver grande parte da educação criativa como um processo de aprendizagem de entender as coisas como arte, como música, como design, como arquitetura, etc. Existem, claro, maneiras mais detalhadas de considerar as coisas como composições, pinturas, produtos e daí em diante. Ainda, as coisas podem ser entendidas como ferramentas, métodos, materiais, etc. Isso demonstra uma complexa interrelação onde os enquadramentos mais cortam transversalmente cada um dos elementos, do que os agrupam. Cada segmento pode ser entendido como pintura, método, material, e daí em diante, enquanto enquadramentos de conhecimento específico possam ser, mas não necessariamente, ativados.
Esses exemplos todos mostram como esses enquadramentos são aceitos em seu contexto e formam parte integral da cultura e da educação. No entanto, quando analisamos mais pormenorizadamente onde a pesquisa acontece nesses contextos, muitas vezes são o enquadramento e reenquadramento desses elementos o que mais importa, e menos o enquadramento epistêmico explícito onde o “conhecimento original” está identificado. Da perspectiva artística, pode parecer ser um outro projeto a parte dar conta de um trabalho tão intrincado, epistemológica ou metodologicamente. Precisamos nos perguntar o quão necessário é fundamentar a investigação prestando esclarecimentos e, a que custo, para que o trabalho artístico possa ser legitimado. Essa requisição externa visando o reconhecimento institucional da pesquisa artística, para muitos casos pode ser mais prejudicial do que benéfica em quatro aspectos. O primeiro, pode confundir o pesquisador a acreditar que seu investimento na pesquisa artística é menos relevante do ponto de vista da credibilidade epistêmica do que atender a marcos de um enquadramento de conhecimento específico. O segundo, desde que a justificação epistêmica não faz parte da educação artística, tanto a experiência quanto a habilidade para essa tarefa podem faltar aos artistas, o que pode ocasionar um desequilíbrio qualitativo ao longo do trabalho. O terceiro, esses desequilíbrios podem afetar o engajamento do parecerista e do leitor levando-os a equívocos quanto aonde residem as contribuições. O quarto, e o mais prejudicial para o campo, pode haver a tendência de suprimir ou rebaixar aspectos difíceis e substanciais de leitura material da obra, fazendo com que peças-chave sejam descartadas —como talvez um ruído ou ornamento, cujos propósitos permaneçam obscuros, mas que apesar de tudo, talvez, residam neles a maior excitação.
A pesquisa pode exigir uma maior sensibilidade quanto aos enquadramentos, ou seja, é possível reconhecer onde e como esses impactam em quê. Um exemplo poderia ser os diferentes papéis do compositor ou do intérprete, já que esses enquadramentos se organizam em torno de noções de “obra” que impactam o que cada um deles pode fazer — uma configuração, em contrapartida, que é parte de um paradigma específico da música ocidental. Além disso, se assumirmos que os referenciais são muitos e distribuídos, alguns apresentarão mais tensão do que outros, onde o material disponível não alcança uma resolução. No exemplo, a pesquisa musical específica pode desafiar ambos referenciais, ou bem, manter um forte e produtivo, enquanto particularmente exercer pressão sobre o outro.
A pesquisa vista sob este ângulo, não é antes de tudo uma atividade que produza resultados, mas uma prática de transição entre leituras, na qual uma modificação pode reconfigurar muitas outras passagens, sendo necessário extrair conclusões ao longo do processo, tais como avaliar novas possibilidades potenciais que tenham surgido inesperadamente num determinado contexto. Se compararmos os desenvolvimentos atuais da pesquisa artística com os movimentos de vanguarda, salta aos olhos o quanto frequentemente a pesquisa parece se coibir mais do que expandir uma ideia. Vemos isso repetidamente nos processos de avaliação que recebemos: avaliadores ficam entusiasmados por um projeto, mas sentem que o mesmo não vai suficientemente adiante. Considero isso uma oportunidade perdida, a de transpor as pressuposições para ver mais adiante as consequências trilhadas pela pesquisa. Por várias razões, a formação em pesquisa, ou a cultura em torno dela, parece impedir que os artistas possam ver os enquadramentos necessários nas reconfigurações do contexto de seus projetos. Há uma diferença entre os enquadramentos que poderiam ter sido abordados e que permaneceram como pressuposições, e aqueles que nem foram sequer considerados no projeto; e são os primeiros que exigem nossa atenção.
Não pretendo saber quais enquadramentos estes poderiam ser. No entanto, pode ter um melhor impacto se considerarmos a pesquisa artística como um projeto mais desafiador, do que explicações o seriam, em particular em tempos quando carecemos de diferentes pontos de partida além dos atuais culturalmente dominantes. O que importa é menos quais conhecimentos um projeto produz, e mais até onde um projeto pode ser acompanhado, já que a cada leitura ele se abre a reconfigurações e potencialmente adiciona um novo momento. Portanto, mais ênfase pode ser dada a acompanhar através dos cruzamentos de enquadramentos até que o movimento de um projeto se extinga — ou seja, até que ele seja enquadrado, isso é, capaz de finalizar sem maior tensão — em vez de ser contido, e é a diferença entre esses dois modos que, em minha opinião, requer mais atenção. Embora por um lado, eu espere que alguns projetos de pesquisa fiquem mais aderidos a seus materiais, de outro, também espero que outros se movam mais além do ponto onde atualmente param. Dessa maneira, eu não considero que um seja melhor do que o outro, mas que ambos são adequados a seus potenciais, desde que não sejam forçados a parar quando um enquadramento parece se encerrar, nem a ir mais longe do que seu próprio movimento lhes permite.
Michael Schwab
editor chefe