Introdução ao texto de Pedro de Niemeyer Cesarino

Yara Guasque

 

Para o Igarapés, O problema da duplicação e da projeção entre os marubo (Amazônia ocidental), de Pedro de Niemeyer Cesarino, amplia o estatuto da imagem para a pesquisa artística. O artigo discorre sobre a questão dos “duplos” entre os marubo. A imagem para esse grupo e outros distintos, embora seja ativa internamente, não é icônica nem visível. Outras referências usadas, como a dos tzeltales do Chiapas, México, entre os povos ameríndios, servem para corroborar imagens que não servem para o exercício empírico da visão, como é usual no ocidente.

O texto discorre sobre a formulação dos marubo de imagens na maior parte não icônicas, em forte contraste com a cultura ocidental, e linguagens, que obliteraram este aspecto da percepção visual não icônica.

Pensar o estatuto das imagens e suas relações de índice e de referente com o que representa é atual, pois afinal vivemos num "mundo já marcado pelos transportes, trajetos e citações –muitas das quais referentes à complexa babel sociocósmica que incide no corpo do romeya em uma sessão xamânica".

Partimos com Cesarino na incumbência de neutralizarmos primeiramente a dicotomia entre corpo e imagem, num desdobramento de seu livro Oniska - poética do xamanismo na Amazônia (Perspectiva, 2011), derivado de sua tese de doutorado. O texto aqui apresentado remete diretamente a esse livro, e se ancora, ademais, em formulações de corpo de outros teóricos, que ao longo de suas trajetórias, dedicaram-se às cosmologias indígenas, como Eduardo Viveiros de Castro, entre outros. Embora tais autores não se refiram especificamente aos marubo, tratam da noção de “duplo” e seu estatuto de imagem, e a inexistência em nossa cultura de um correspondente satisfatório para essa formulação.

O envoltório vazio de um corpo, a sua imagem, essa sombra projetada, tanto referenciada em sonho quanto em processos de cura, o duplo manteria para o pensamento marubo uma relação com as várias denominações de corpo: corpogente, carne, carcaça, extensão. Entretanto, o corpo marubo não é totalizante, mas é concebido como uma maloca (uma casa comunal), quando esses 'duplos', enquanto índices de suas extensões corporais se socializam entre si. Daí seu grande potencial de comunicação.

Qual o papel que o duplo exerce? O duplo é uma alternativa às denominações corporais das tentativas de tradução de “alma”. Para os ameríndios as imagens fotográficas seriam reflexos e sombras de seus duplos. Poderíamos conjeturar que os duplos poderiam ter incorporado outras visões topográficas, pelos aparelhos tecnológicos e modos de deslocamento no espaço? E, também pela memória eidética que lhes é característica, apreender o vivente em uma simultaneidade atemporal e cronologicamente não linear, o que para nós ocidentais é impossível?

Mesmo que o artigo não se dedique aos índices acústicos, que para nós são majoritariamente abstratos, a percepção de sons icônicos é usual entre os indígenas. Os índices acústicos icônicos, da comunicação da floresta, que possibilitam a percepção da proximidade e do deslocamento inter espécies, se referem ao sistema de correspondência sonora entre caçadores humanos e animais. Esses são tratados sob o termo heã por Bruce Albert, o antropólogo que conviveu com os Yanomami por mais de 40 anos, em A floresta poliglota, de 2015, e também em seu livro com Davi Kopenawa O espírito da floresta (São Paulo: Companhia das Letras, 2023).

A questão do agenciamento do corpo por seus duplos é um ponto esclarecedor. O xamã, em sua prática de cura, não almeja apenas o corpo, e sim o seu duplo. A compreensão do que venha a ser o “duplo”, a pessoa “fractal”, ganhou forte adesão de convencimento através da potente obra de Cláudia Andujar, que conviveu, também, por décadas com os Yanomami. As imagens evanescentes, em suas transitoriedades, são indissociáveis do trabalho de Claudia Andujar. Essas por sua vez foram fundantes para a maneira como a qual percebemos os Yanomami, e também outros grupos indígenas, e para nos incitar a sonhar.